Texto da leitora: Para dar tempo.



"Vai embora", você disse. "E não volta."

As palavras me atingiram duramente. Eu comecei a levantar da cama. Seu corpo deitado ao meu lado, de costas para mim. Cada vez mais distante.

Retardei meus movimentos. E não era porque eu estava anestesiada. Era para que desse tempo de você pensar melhor e ver que está tudo errado, rapaz. Essas palavras duras e esse colchão frio. Suas costas viradas para mim, ao invés de seus braços ao meu redor. Está tudo errado, mas ainda dá tempo de consertar.


Dou um passo de cada vez, bem lentamente, que é pra dar tempo de você lembrar de todo o caminho percorrido até aqui. De todos os sorrisos, piadas, brigas terminadas com "Eu te amo", as danças na chuva, o pique-pega no campo úmido de sereno e, principalmente, todas as pedras que eu te ajudei a chutar e todas as bolas de neve que eu te ajudei a carregar nas costas. Lembra disso, rapaz. Porque vai ser difícil para eu esquecer, e vai ser insuportável me forçar a isso.


Ainda dá tempo. Eu já estou juntando as minhas coisas e até agora você nem se mexeu. Só um "Ei" basta. Não deixa aquelas palavras duras impregnadas em cada móvel desse quarto e nesse ar pesado. Por favor.

Parece que eu desaprendi a vestir o casaco. Minhas mãos tremem e eu desisto. Tá chovendo lá fora e você sempre teve medo de que eu saísse na chuva. O que mudou agora? Eu enfio meus pés nas sandálias e até agora você não virou para mim. Abre os braços novamente e me chama por algum apelido tosco inventado na hora. Essa era a sua brincadeira preferida, e a minha também. 


Não me deixa sair nessa chuva. Gelada e estraçalhada. Vai ser difícil chegar em casa e juntar meus cacos em uma caixinha novamente. Já os juntei tantas e tantas vezes, e você sempre me prometeu que, ao invés de me ajudar a catá-los, me ajudaria a remontá-los.


Está tudo quebrado novamente, rapaz. E você não olha para o lado de cá. A chuva está aumentando, e meu guarda-chuva está quebrado (também). Minha mão já está na maçaneta. Nem um movimento.



Gelada, estraçalhada e olhando para você. Como quando nos conhecemos. Você lembra? Dá para ouvir as batidas do seu coração daqui do outro lado do quarto. Ou são as minhas? Rápidas e repetitivas.

Giro a maçaneta lentamente e saio do quarto. Tudo isso era para dar tempo, mas você já teve todo o tempo que precisava."


Texto escrito por: Aline Próvier